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Alfama vs Mouraria: o que escolher nos dois bairros mais antigos de Lisboa

Rooftops of Lisbon with red tiles and distant sea view.

 

Alfama e a Mouraria são dois dos bairros mais históricos de Lisboa, relativamente próximos para serem explorados na mesma caminhada, mas distintos o suficiente para oferecerem experiências gastronómicas diferentes. 

Para muitos visitantes, ambos fazem parte da Lisboa mais antiga e intimista, onde se esperam ruas íngremes, fachadas com azulejos, pequenos largos, casas antigas, estabelecimentos com fado ao vivo e a promessa de uma boa refeição portuguesa ali ao virar da esquina. Mas basta passar algum tempo em cada um para perceber que as diferenças começam a aparecer. 

Imagem de capa cortesia de Notes From The Road 

Alfama está mais associada ao fado, às vistas sobre o rio, às tradições populares e à Lisboa que muitos viajantes imaginam antes de chegar. A Mouraria é mais densa, mais multicultural, moldada pela migração, pela vida popular e pelo pequeno comércio. 

Nos dois bairros, ainda é possível encontrar lugares onde se serve comida lisboeta autêntica, mas nem sempre da mesma forma, nem com o mesmo ambiente. Este guia olha para aquilo que cada bairro pode revelar sobre Lisboa e para os sítios onde quem gosta de comer ainda pode encontrar lugares locais, interessantes e com sentido. 

Alfama e a Mouraria em resumo 

Aerial view of a coastal town with red rooftops and calm blue sea.

Imagem cortesia de Paolo Costa Baldi via Wikimedia 

 

Explorar Alfama 

– Destaques: casas de fado, vistas sobre o rio, tabernas tradicionais, peixe grelhado e a imagem clássica da Lisboa antiga, com ruas íngremes, fachadas de azulejo e pequenos largos encantadores. 

– Caminhar por: Largo do Chafariz de Dentro, São Miguel e Santo Estêvão, recantos históricos de Alfama onde ruas estreitas, escadinhas, pequenas igrejas e esquinas cheias de carácter mostram um lado mais local do bairro. Continue até aos miradouros de Santa Luzia e das Portas do Sol para algumas das melhores vistas sobre os telhados de Alfama e o rio Tejo. 

– Visitar: o Museu do Fado, para perceber melhor a música que continua a marcar boa parte da vida noturna de Alfama, a Sé de Lisboa, o percurso em direção ao Castelo de São Jorge, o Mosteiro de São Vicente de Fora e o Panteão Nacional. 

– Experiência gastronómicacomida portuguesa tradicional ligada ao fado, às festas populares, às tabernas antigas e às refeições demoradas depois de uma boa caminhada pelo bairro. Procure jantares com fado, sardinhas assadas na época certa, peixe grelhado, refeições simples de taberna, vinho português, petiscos, ginjinha e sobremesas tradicionais. 

Crowded restaurant with diners eating and staff serving food.

Imagem cortesia de The Infatuation 

Explorar a Mouraria 

– Destaquestascas, cafés antigos, casas de almoço portuguesas, história do fado, negócios de comida multiculturais e um lado mais quotidiano do centro de Lisboa, onde a comida portuguesa tradicional convive com restaurantes e lojas mais recentes geridos por comunidades imigrantes. 

– Caminhar por: Largo da Severa e Rua do Capelão, ligados a Maria Severa e à história do fado; São Cristóvão, com a sua igreja, fachadas azulejadas e passagens íngremes; Largo das Olarias e as ruas em redor do Martim Moniz, onde casas antigas, pequenos restaurantes e negócios geridos por imigrantes convivem de perto. 

– Visitar: a Igreja de São Cristóvão, a zona do Largo da Severa para conhecer melhor a história do fado, e o Martim Moniz para uma visão mais urbana e multicultural do bairro. A Mouraria não se resume a um grande monumento. O interesse está sobretudo em caminhar por ruas onde diferentes camadas de Lisboa se sobrepõem. 

– Experiência gastronómica: comida portuguesa tradicional num contexto prático, muitas vezes ligado a menus de almoço, balcões, clientes habituais e doses generosas. Procure grelhados, refeições de tasca à moda antiga, almoços portugueses simples, cozinha de taberna mais recente, projetos comunitários ligados à comida e uma alternativa aos jantares de fado fora de Alfama. 

Mouraria: tascas e Lisboa multicultural 

A Mouraria fica perto da colina do castelo, do Martim Moniz e das ruas que levam até Alfama, mas tem um carácter próprio. O seu nome remonta ao período após a conquista cristã de Lisboa, no século XII, quando parte da população muçulmana da cidade se fixou nesta zona.  Com o tempo, o bairro ficou associado à classe trabalhadora, ao pequeno comércio, à cultura popular, à migração e às comunidades que ajudaram a manter a cidade em movimento. 

Sunlit hillside with houses and a castle in the background, flags flying.

Imagem cortesia de EnVols 

A Mouraria merece ser explorada a pé porque muitos dos seus detalhes mais interessantes não estão concentrados em torno de um único monumento. O Largo da Severa e a Rua do Capelão ligam o bairro à história do fado e à figura de Maria Severa, muitas vezes lembrada como uma das primeiras vozes míticas do género. Em São Cristóvão, a igreja, as fachadas de azulejos e as passagens íngremes mostram uma Lisboa antiga com uma atmosfera mais fechada e urbana. Mais abaixo, o Martim Moniz dá à zona uma dimensão mais urbana e multicultural, enquanto o Largo das Olarias e as ruas em redor juntam casas antigas, pequenos restaurantes, negócios de imigrantes, oficinas e projetos mais recentes. 

Table with fried fish, salad, sausages, sauces, and drinks.

Imagem cortesia de Na Panela do Lombardo 

A cultura gastronómica portuguesa da Mouraria está muito ligada aos hábitos de almoço, aos cafés, aos balcões e às tascas que servem pessoas que passam pela zona a trabalhar, fazer compras, tratar de recados ou comer qualquer coisa rapidamente. É aqui que pratos do dia acessíveis, grelhados, sopa, sandes, vinho da casa e sobremesas simples continuam a importar mais do que uma carta longa ou uma sala cuidadosamente decorada. 

Man standing behind counter in a small bakery or cafe.

Imagem cortesia de Public Books 

A identidade multicultural do bairro é impossível de ignorar. Em redor do Martim Moniz e nas ruas que sobem pela Mouraria, restaurantes sul-asiáticos, mercearias chinesas, referências africanas, talhos halal, casas de almoço nepalesas e bangladeshianas e cafés geridos por imigrantes passaram a fazer parte da paisagem gastronómica. A comida portuguesa tradicional convive com estas culturas gastronómicas mais recentes, dando ao bairro um ritmo prático, diverso e muito vivo. 

É também por isso que a Mouraria é um bairro tão bom para quem gosta de comer e descobrir. Numa só caminhada, pode passar de uma tasca à moda antiga para um restaurante moçambicano, de uma casa de fado para um café com uma das esplanadas mais agradáveis da zona, de um bar de bairro para uma taberna mais recente onde a comida portuguesa é trabalhada com mais atitude. A Mouraria não tem uma única identidade gastronómica, e é precisamente aí que está a sua força. Esta zona é um dos melhores bairros para comer em Lisboa, e essa é uma das razões pelas quais a Mouraria faz parte do nosso Passeio Raízes de Lisboa, Gastronomia e Cultura.

Claro que a Mouraria também não ficou intocada pelo turismo ou pela pressão imobiliária. Novos restaurantes, edifícios renovados e mudanças nos padrões de consumo alteraram partes da zona, e nem todos os lugares que parecem modestos são automaticamente bons. Mas o bairro ainda mantém um forte sentido de uso quotidiano e, para quem se interessa por comida portuguesa para lá dos símbolos mais óbvios, isso importa. 

Onde comer na Mouraria 

Comer na Mouraria funciona melhor quando se pensa para lá de um grande restaurante “obrigatório”. O bairro entende-se melhor através de tascas, balcões de almoço, cafés antigos, grelhados, história do fado, cozinha de taberna mais recente e projetos comunitários. Alguns lugares são simples e práticos, outros tornaram-se restaurantes de referência, mas juntos mostram como a comida portuguesa continua a existir numa parte da cidade em mudança. 

People socializing outside a yellow building with 'Tasca Zé dos Cornos' signage.

Imagem cortesia de Hustle Around The World 

Zé dos Cornos (Beco dos Surradores 5) é uma boa opção para uma experiência típica de tasca da Mouraria, com forte foco na grelha. É conhecido pelo entrecosto, carnes grelhadas, choco, arroz, feijão, batatas e jarros de vinho, com mais atenção ao apetite do que à delicadeza do empratamento. Para quem viaja com vontade de perceber a comida de taberna portuguesa, uma das suas doses generosas dá um bom contexto. 

Two plates of meat with fries and salad on a speckled countertop. 

Imagem cortesia de O Trigueirinho no Instagram 

O Trigueirinho (Largo dos Trigueiros 17) é uma ótima paragem para uma refeição portuguesa tradicional na Mouraria, sobretudo se procura algo simples, acessível e familiar. Peixe, carne, acompanhamentos caseiros e sobremesas tradicionais são o tipo de pedido que funciona bem nesta casa acolhedora, que mostra como a comida tradicional continua bem viva na Mouraria. 

People dining at an outdoor patio with yellow walls and umbrellas.

Imagem cortesia de Cantinho do Aziz no Google 

O Cantinho do Aziz (Rua de São Lourenço 3) é paragem obrigatória para perceber a Mouraria para lá do circuito das tascas portuguesas. Este restaurante moçambicano de gestão familiar é uma das grandes referências da zona, servindo pratos como chamuças, caril de caranguejo, caril de camarão, frango grelhado marinado com coco, arroz de coco e outros sabores marcados por Moçambique, Goa e o mundo do Índico. Uma prova viva, e deliciosa, de que o panorama gastronómico da Mouraria não se resume à comida portuguesa no sentido mais estrito, mas também às comunidades que tornaram o bairro mais complexo e muito mais interessante à mesa.

Building with a red-lit tree outside at dusk, people gathered at entrance.

Imagem cortesia de Maria da Mouraria no TripAdvisor 

A Mouraria também tem a sua própria referência de fado, a Maria da Mouraria (Largo da Severa 1), situada no bairro tão associado a Maria Severa, uma das figuras míticas da história do fado. Oferece um formato de jantar com fado, comida portuguesa e música ao vivo, sendo uma boa opção para viajantes que querem ouvir fado fora de Alfama, mas ainda numa das zonas historicamente importantes para esta música. O formato do menu costuma ser mais estruturado, por isso é um lugar para reservar a pensar na atuação, e não para um jantar casual de última hora. Entradas portuguesas, pratos principais, vinho, sobremesa e fado fazem parte do pacote, e a experiência tem mais a ver com contexto cultural do que com uma refeição rápida ou barata na Mouraria. 

Tasquinha Canto do Fado (Rua de São Cristóvão 33-35) é outra referência a considerar para quem quer ouvir fado na Mouraria, num registo mais pequeno e tradicional. Enquanto a Maria da Mouraria funciona bem para uma noite mais estruturada, com jantar e espetáculo pensados como uma experiência completa, a Tasquinha Canto do Fado oferece uma alternativa mais intimista, ligada às ruas de São Cristóvão e ao ambiente histórico do bairro. É uma boa opção para quem procura fado fora do circuito mais óbvio de Alfama, mantendo a ligação à Mouraria e à sua memória fadista.

Hands cutting cabbage-wrapped dish with gravy on blue-patterned plate.

Imagem cortesia de World of Mouth 

O Velho Eurico (LG de São Cristóvão 3) é um dos exemplos mais fortes de uma nova geração de cozinha de taberna portuguesa nesta zona de Lisboa. Tornou-se muito popular, por isso reservar com antecedência ou chegar cedo é essencial. A cozinha é -dinâmica e pensada para partilhar, com sabores portugueses tratados de uma forma mais jovem e divertida. Dependendo da carta, procure pratos de bacalhau, arroz de polvo, fígado em pão torrado, pratos de porco, croquetes de carne e sobremesas da casa, que sabem ainda melhor com vinho português. A sala tem boa energia, a comida tem personalidade e a experiência mostra como o espírito de tasca pode continuar a evoluir sem perder a ligação à cozinha portuguesa. 

People seated in a cafe with menu boards and wall posters visible.

Imagem cortesia de Ana Almeida

A Tasca Baldracca (Rua das Farinhas 1) é outro estabelecimento que pertence a esta vaga mais recente de cozinha de taberna em Lisboa, mas com uma personalidade mais irreverente e muito própria. O ambiente parece descontraído, por vezes quase caótico no melhor sentido possível, mas a comida que serve é bem mais pensada do que a primeira impressão sugere. Vá à Baldracca para provar pratos feitos para partilhar, inspirados em sabores portugueses, mas sem se limitarem ao formato habitual da tasca tradicional, apesar do nome da casa. Num bairro onde a Lisboa antiga e a Lisboa mais recente estão constantemente a cruzar-se, a Baldracca encaixa na perfeição.

Catedrais (Rua de São Cristóvão 23) é o tipo de restaurante que mostra como uma casa na Mouraria pode receber visitantes sem perder o seu lugar na vida quotidiana do bairro. Funciona tanto para tapas, comida portuguesa, vinho, cocktails ou um copo ao fim do trabalho, e o ambiente pode ir mudando ao longo do dia, de restaurante a ponto de encontro de vizinhança. O que faz do Catedrais uma boa paragem na Mouraria é parecer acessível acessível para viajantes, mas continuar suficientemente enraizado para atrair pessoas que vivem, trabalham ou passam tempo na zona de São Cristóvão.

Two people clinking glasses at an outdoor cafe table with food.

Imagem cortesia de Café O Corvo no Facebook

Outra boa paragem num roteiro pela Mouraria é o Café O Corvo (Largo dos Trigueiros 15A). É um espaço bonito para tomar café, fazer um brunch com toque português, comer uma refeição leve ou simplesmente passar algum tempo numa das esplanadas mais agradáveis da zona, com uma bebida na mão. Quando o tempo não estiver demasiado quente, peça uma mesa lá fora e observe o movimento do bairro enquanto relaxa.

O contexto multicultural da Mouraria também pode entrar na refeição sem substituir o foco português. A Cozinha Popular da Mouraria (Rua das Olarias 5), por exemplo, não é apenas mais uma recomendação de restaurante, mas sim um projeto comunitário ligado à vida social e à mistura cultural do bairro. Vale a pena a referência para viajantes interessados em perceber como comida e comunidade se cruzam na Mouraria, mas convém verificar a programação atual antes de ir. 

Alfama: vida de bairro, vistas sobre o rio e fado 

Alfama é um dos bairros onde a imagem tradicional de Lisboa se sente mais concentrada, mas essa imagem não apareceu do nada. O bairro sobe desde o rio em direção ao castelo por ruas estreitas e escadinhas, numa zona que foi crescendo ao longo dos séculos sem grande planeamento urbano. Ao contrário das áreas mais grandiosas da Baixa, reconstruídas depois do terramoto de 1755, Alfama manteve muitos dos seus edifícios e ruas mais antigos. Essa irregularidade continua a influenciar a forma como as pessoas se movem pelo bairro, onde param e como a vida social se espalha por cafés, portas, pequenas esplanadas e salas de restaurante. 

Art gallery with mandolins in a display case and a painting on the wall.

Imagem cortesia de LISBOA 

Para quem visita, Alfama merece ser explorada devagar antes de se sentar à mesa. O Museu do Fado (Largo do Chafariz de Dentro 1) ajuda a contextualizar a música que ainda define boa parte da vida noturna do bairro, enquanto as ruas em redor do Largo do Chafariz de Dentro, São Miguel e Santo Estêvão mostram um lado mais vivido de Alfama. Mais acima, os miradouros de Santa Luzia e das Portas do Sol enquadram Alfama tal como muitos viajantes imaginam Lisboa pela primeira vez, com telhados, torres de igrejas, o rio e a cidade a descer em camadas. Perto dali, a Sé de Lisboa (Largo da Sé 1), o percurso em direção ao Castelo de São Jorge, o Mosteiro de São Vicente de Fora (Largo de São Vicente) e o Panteão Nacional (Campo de Santa Clara) ajudam a explicar porque é que esta parte da cidade carrega tanto peso histórico. Alfama é o bairro mais antigo e tradicional de Lisboa e descobre-se melhor aos poucos, com paragens frequentes para apreciar a vista e absorver o ambiente. 

Plates of grilled seafood, greens, and potatoes with wine on a table.

Imagem cortesia de O Alpendre no TripAdvisor 

A sua cultura gastronómica começa pela geografia. Alfama esteve sempre perto do rio, do porto e das comunidades trabalhadoras que viviam em torno deles. Pescadores, trabalhadores portuários, pequenos comerciantes, lavadeiras, artesãos e famílias que viviam em casas densamente ocupadas contribuíram para a identidade popular da zona. Isto não significa que Alfama tenha uma cozinha própria completamente separada do resto de Lisboa, mas ajuda a explicar porque é que a comida associada a esta área costuma ser prática e familiar. Tradicionalmente, falamos mais de peixe do que de carne, sopa ao início da refeição, pão na mesa e vinho quase sempre por perto, não apenas nas ocasiões especiais. 

O fado faz parte da identidade de Alfama, mas o bairro não deve ser reduzido a um jantar com espetáculo. A sua ligação à música é real, e as casas de fado continuam a ter um papel importante no panorama gastronómico e noturno local. Dito isto, nem todos os jantares de fado oferecem a mesma experiência. Alguns lugares estão mais focados na música, enquanto outros oferecem o pacote completo de jantar, vinho e atuação para visitantes. 

Grilled fish on a plate with salad, bread, and a glass of red drink on a table. 

Imagem cortesia de Lost in Lisbon 

A sazonalidade também importa quando se fala de comer em Alfama. Junho traz as Festas de Lisboa, quando o bairro se enche de música na rua, fumo, grelhados, sobretudo sardinhas assadas, copos de plástico e um caos festivo que atrai tanto moradores como visitantes. Além das populares festas de Santo António, o verão também é bom para petiscos mais leves e bebidas frescas em mesas ao ar livre.  No outono e no inverno, o apetite vira-se mais para sopas, estufados, pratos de bacalhau, carnes assadas e refeições que fazem mais sentido quando a cidade está em dias frios. 

Mixed vegetables and meat in a metal dish on a table setting.

Imagem cortesia de Maria Catita no Instagram 

Claro que a beleza de Alfama fez dela um dos bairros mais visitados de Lisboa, e isso muda a experiência. Alguns restaurantes ainda se sentem bem enraizados no bairro, enquanto outros são construídos em torno daquilo que os visitantes imaginam que a comida portuguesa deve parecer. Isso não significa que se deva desconfiar de todos os restaurantes visíveis, até porque Alfama sempre recebeu gente de fora e o turismo faz hoje parte da sua economia diária. Mas significa que quem gosta de comer bem deve prestar atenção. Uma verdadeira refeição lisboeta por aqui costuma ter menos a ver com promessas gritantes de “comida típica” e mais com detalhes discretos como um menu que tem realmente a ver com o tipo de restaurante em questão, pratos que fazem sentido na estação, funcionários que não estão desesperados para levar pessoas para dentro e uma sala que parece ligada ao bairro, não apenas à sua versão pitoresca mais idealizada. Leia mais sobre como reconhecer restaurantes autênticos em Lisboa e evitar as armadilhas para turistas. 

Onde comer em Alfama 

Comer em Alfama resulta melhor quando se escolhe o lugar de acordo com o tipo de refeição que se quer ter. Um jantar de fado, peixe grelhado ao ar livre, uma refeição de taberna, vinho português com alguns petiscos ou um copo rápido de ginjinha podem fazer todo o sentido por aqui, desde que não se espere que estas opções ofereçam exatamente o mesmo tipo de experiência. 

Fado singer performs with musicians in a cozy, decorated room surrounded by small audience.

Imagem cortesia de todoweekend 

Numa noite de fado, a refeição é apenas uma parte da experiência. A Parreirinha de Alfama (Largo do Chafariz de Dentro), a Mesa de Frades (Rua dos Remédios 139) e o Clube de Fado (Rua de São João da Praça 94) são escolhas clássicas para quem procura uma noite mais estruturada, em que jantar e atuação fazem parte da mesma experiência. A Mesa de Frades, na fotografia acima, é especialmente conhecida pelo seu espaço numa antiga capela, o que faz da própria sala parte do encanto. Nestes lugares, faz sentido escolher pratos portugueses familiares, capazes de acompanhar uma noite longa sem terem de ser o único motivo da visita. Procure pratos de bacalhau, polvo, carnes assadas ou grelhadas, queijos, enchidos e sobremesas tradicionais portuguesas. O principal motivo para ir é a combinação de comida, vinho, fado e ambiente, por isso convém confirmar o formato antes de reservar, incluindo menus fixos, consumo mínimo e horários das atuações. 

Cozy restaurant with mirrors, guitars, and glasses on set tables.

Imagem cortesia de Tasca da Bela 

Se quiser ouvir fado num ambiente menos formal, a Tasca da Bela (Rua dos Remédios 190) e a Tasca do Chico (Rua dos Remédios 83), em Alfama, oferecem outro tipo de noite. A Tasca da Bela tem um ambiente mais caseiro, com um formato de jantar assente em comida portuguesa e fado, enquanto a Tasca do Chico é mais conhecida pelo fado vadio, onde a noite pode ser mais espontânea e diferentes cantores podem acabar por atuar. Nestes lugares, sobretudo nos mais informais, a comida deve ser vista como parte da experiência social, e não como um jantar de restaurante convencional. Espere uma refeição mais simples com petiscos, vinho, cerveja, queijo, enchidos, pão e aquilo que a casa estiver a servir nessa noite. Vai-se para comer, sim, mas também para ouvir e fazer parte do ambiente da sala. 

Outdoor gathering with people seated at tables under string lights and tree canopy. 

Imagem cortesia de Time Out Lisboa 

Para grelhados, o Páteo 13 (Calçadinha de Santo Estêvão 13) é uma das referências mais conhecidas de Alfama, sobretudo para quem procura uma refeição casual ao ar livre em vez de uma experiência de restaurante formal. O foco está nos grelhados simples, geralmente peixe ou carne com acompanhamentos modestos, como batata cozida e salada, num ambiente informal e muito ligado à vida do bairro. As sardinhas assadas são a escolha óbvia na época certa, sobretudo por volta de junho, mas vale a pena prestar atenção ao resto da grelha. Dependendo do dia ou do seu gosto, dourada, robalo, peixe-espada, entrecosto, frango ou outro grelhado simples pode ser uma melhor escolha. 

Para uma refeição portuguesa mais tradicional perto de um dos pontos panorâmicos mais movimentados do bairro, o Farol de Santa Luzia (Largo de Santa Luzia 5) pode resultar bem. A localização junto ao miradouro de Santa Luzia significa que está também a escolher o cenário, mas isso não tem de ser mau. Aqui fazem sentido pratos clássicos de restaurante português, incluindo bacalhau numa das suas formas familiares, peixe grelhado ou assado, pratos típicos de polvo, carnes e sobremesas tradicionais. Pode ser uma boa introdução à cozinha portuguesa clássica, por isso escolha algo que ainda não tenha provado e aproveite. 

Person serving seafood stew from pot to plate on a table. 

Imagem cortesia de Garoby A no TripAdvisor 

Lautasco (Beco do Azinhal 7), escondido nas ruas de Alfama, é outra opção para viajantes que procuram uma experiência de restaurante português mais casual. É o tipo de lugar onde peixe, marisco e pratos de carne costumam fazer mais sentido do que qualquer coisa demasiado elaborada. Se estiverem disponíveis, peça peixe grelhado, polvo, bacalhau, espetadas ou pratos de marisco que combinam com a identidade ribeirinha do bairro. Este estabelecimento também serve como lembrete de que a comida em Alfama não se resume a casas de fado ou restaurantes com vistas famosas. Algumas refeições por aqui resumem-se a encontrar uma mesa no meio do labirinto e pedir algo simples depois de subir e descer as ruas do bairro. 

People dining with various dishes on a table, including wine and bread.

Imagem cortesia de Taberna Sal Grosso no Instagram 

Para uma refeição de taberna num registo português mais contemporâneo, a Taberna Sal Grosso (Calçada do Forte 22), mais perto de Santa Apolónia, é uma das melhores tascas contemporâneas de Lisboa. A carta muda regularmente, por isso é melhor seguir o que a cozinha está a servir nesse dia em vez de chegar com um prato fixo em mente. Espere sabores portugueses num formato mais moderno, muitas vezes através de pratos mais pequenos, ingredientes sazonais e uma carta de vinhos que merece atenção. 

Neon sign 'Antiga Wine Bar' with people dining inside.

Imagem cortesia de Antiga Wine Bar no TripAdvisor 

Alfama também é ótima para vinho e petiscos, sobretudo quando não apetece uma refeição mais completa. O CorkScrew Wine Bar (Rua dos Remédios 95) é uma boa paragem para vinho português, e o Antiga Wine Bar (Rua de Santo António da Sé 10), perto da Sé, pode cumprir uma função semelhante se o seu percurso o levar para mais perto da catedral. Em vez de escolher automaticamente uma garrafa qualquer, peça recomendações de diferentes regiões vinícolas portuguesas e acompanhe com queijos, enchidos, pastéis de bacalhau, conservas, azeitonas, pão, azeite ou outros petiscos que estejam a servir.  

Se quiser algo muito casual, vá à Medrosa d’Alfama (Largo de São Rafael 6) e peça uma ginjinha. Um copo de ginjinha não é uma refeição, mas funciona bem como pausa rápida entre o Museu do Fado, Santa Apolónia e as ruas que sobem pelo bairro. Às vezes, a melhor forma de viver Alfama é através de uma sequência de pequenas decisões, como café, ginjinha, um petisco, alguns salgados portugueses, um copo de vinho e, se a noite caminhar nessa direção, ainda uns fados. 

Smiling woman holding a bottle of wine indoors.

Imagem cortesia de Veteq102 no Reddit 

Alfama e a Mouraria ficam suficientemente perto para serem exploradas no mesmo dia, mas, para quem gosta de comer, cada um destes bairros oferece uma porta de entrada diferente para Lisboa. O percurso mais interessante não passa por decidir qual dos bairros é mais autêntico, mas por deixar que cada um mostre um lado diferente da cultura gastronómica da cidade. 

Para continuar a explorar Lisboa através da sua comida, das suas pessoas e dos seus bairros, junte-se a um dos passeios gastronómicos e culturais da Taste of Lisboa. E para mais dicas locais, descobertas à mesa e histórias de Lisboa para lá dos clichés habituais dos guias de viagem, siga-nos no Instagram. 

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