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Outras formas de comer sardinha em Portugal além da sardinha assada

Four sardines on top of sliced carrots with oil on a plate.

O cheiro a sardinha assada anuncia a chegada do verão em Portugal. Em Lisboa, este peixe tornou-se sinónimo das festas populares de junho em honra de Santo António e também um símbolo visual da cidade, que aparece vezes sem conta em todo o tipo de recordações, da cerâmica tradicional às t-shirts mais contemporâneas. 

Imagem de capa cortesia de Lena Mattar 

Os portugueses têm uma relação especial com este peixe, sobretudo na forma de sardinhas assadas. Nesta preparação, o peixe é grelhado no carvão, temperado apenas com sal grosso, e servido com batatas cozidas e salada de pimentos assados quando a refeição é à mesa, ou em cima de uma fatia grossa de pão quando é comida na rua, durante as festas populares. 

A sardinha está tão enraizada na cultura portuguesa porque, durante séculos, foi um alimento acessível e abundante para pescadores, trabalhadores portuários e famílias das classes populares. Historicamente, a sardinha foi e continua a ser, uma opção de peixe popular e relativamente democrática. 

Person grilling fish on a barbecue near a stone wall.

Imagem cortesia de IATI Seguros 

As sardinhas assadas existem um pouco por todo o país, mas em Lisboa ganharam um peso simbólico particular. Todos os anos, em junho, durante os Santos Populares, sobretudo nas celebrações de Santo António, na noite de 12 para 13 de junho, é comum encontrar grelhadores ao ar livre nos bairros mais tradicionais da cidade, onde a festa ganha vida, como Alfama, Mouraria, Graça, Bica e Madragoa. Embora estas celebrações tenham uma origem religiosa e incluam muitas tradições populares, ficaram tão associadas à comida de rua que, para muitos visitantes, Santo António é frequentemente descrito como o “festival da sardinha” de Lisboa. 

A associação entre sardinha e verão tem a ver com o facto de este ser um peixe sazonal. Durante os meses quentes, a sardinha torna-se mais cheia, mais gorda e mais saborosa. Embora possa começar a aparecer nos grelhadores mais cedo, muitos locais dir-lhe-ão que as melhores sardinhas chegam um pouco mais tarde, quando o peixe já teve tempo de ganhar gordura. Isto é importante porque uma boa sardinha assada depende dessa riqueza natural. O peixe é pequeno, mas quando está no ponto certo, a carne é suculenta, a pele fica estaladiça no carvão e há gordura suficiente para pingar sobre o pão. Quando a sardinha é boa, basta carvão e sal. 

Six decorative fish illustrations with unique colorful designs.

Imagem cortesia de EGEAC 

Para lá da mesa, a sardinha ganhou novo significado visual em 2003, quando o atelier Silvadesigners criou a sardinha estilizada que se tornou uma das imagens identificadoras das Festas de Lisboa. Desde 2011, as sardinhas oficiais da cidade têm sido escolhidas através de um concurso aberto promovido pela EGEAC, que convida artistas e o público em geral a reinterpretar, ano após ano, a mesma silhueta simples deste peixe. O resultado foi transformar a sardinha num dos símbolos contemporâneos mais reconhecíveis de Lisboa, suficientemente versátil para aparecer em quase tudo. Isto ajuda a explicar por que é que os visitantes veem sardinhas por toda a cidade. Não apenas nos menus, mas também em postais, aventais, ímanes, azulejos, meias, sacos de pano e em praticamente todo o tipo de recordação. 

Chocolate sardines in open tin with colorful packaging showing a cartoon figure.

Imagem cortesia de Felicidade Enlatada 

Se pensa em recordações comestíveis de Lisboa, as latas de sardinha são uma das primeiras coisas que vêm à cabeça. A indústria conserveira portuguesa desenvolveu-se de forma significativa a partir do século XIX, com produção inicial associada a lugares como Vila Real de Santo António, Setúbal e, mais tarde, aos importantes centros conserveiros do Norte, em torno de Matosinhos e Leixões. À medida que esta indústria cresceu, as sardinhas em conserva e outros tipos de conservas de peixe e marisco tornaram-se não só ingredientes comuns na despensa portuguesa, mas também uma marca da identidade gastronómica do país. 

A maioria dos visitantes associa a sardinha em Portugal quase exclusivamente à versão assada. Mas este peixe tem um repertório muito mais amplo, e algumas das melhores maneiras de o comer em Lisboa raramente aparecem no radar turístico. Estas são outras maneiras de comer sardinha que esperamos que experimente na sua próxima viagem por Portugal: 

Paté de sardinha 

Plate with bread, mixed olives, carrot salad, and butter containers. 

Imagem cortesia de Tomorrow Magazine 

O paté de sardinha é uma daquelas coisas que pode aparecer numa mesa de restaurante em Portugal mesmo sem ter sido pedido. Em muitos restaurantes tradicionais e tascas mais simples, surge como parte do couvert, a pequena seleção de produtos que chega à mesa no início da refeição. Normalmente inclui pão, manteiga, azeitonas, por vezes queijo, e um ou dois patés embalados, quase sempre paté de atum ou paté de sardinha. Não é propriamente uma oferta da casa, mas sim uma sugestão para ir petiscando enquanto a cozinha prepara o seu pedido. Só paga aquilo que abrir ou consumir. 

Neste contexto, o paté de sardinha costuma vir em pequenas embalagens individuais seladas, pois geralmente não é caseiro. A textura é lisa e fácil de barrar, mais uniforme do que a de um paté caseiro, com o sabor da sardinha em conserva suavizado por gordura, temperos e, em algumas versões, tomate. Come-se normalmente com pão, tostas ou bolachas de água e sal. 

Em casa, o paté de sardinha pode ser bastante melhor do que a versão embalada. É também uma das maneiras mais simples de transformar uma lata de sardinhas em algo um pouco mais elaborado para servir com uma bebida. Escorra uma lata de sardinhas em azeite, esmague o peixe com um garfo e misture com uma ou duas colheres de maionese. Junte umas gotas de limão, um pouco de mostarda se gostar, pimenta preta, salsa picada, cebola bem picadinha ou pickles. Para um sabor mais à antiga, daqueles que lembram os petiscos de tasca, use sardinhas em molho de tomate em vez de sardinhas em azeite, ou acrescente uma colher pequena de polpa de tomate e umas gotas de piri-piri. Um bom paté de sardinha deve encontrar equilíbrio entre a gordura natural do peixe e um elemento mais fresco, ácido ou picante. 

Se estiver em Portugal, encontra paté de sardinha em praticamente qualquer supermercado, mas em Lisboa recomendamos procurar marcas de melhor qualidade em algumas das mercearias tradicionais mais emblemáticas da cidade. Se estiver fora do país, pode encomendar paté de sardinha português em lojas online especializadas que fazem entregas internacionais, como A Vida Portuguesa, The Fantastic World of the Portuguese Sardine ou Portugalia Marketplace. 

Sardinhas em conserva 

Open can of sardines on wooden table with bread and butter. 

Imagem cortesia de Fui ao Mar 

A indústria conserveira portuguesa começou a desenvolver-se na segunda metade do século XIX, inicialmente concentrada no Algarve e na península de Setúbal, onde a pesca da sardinha já tinha grande importância nas economias locais. À medida que a indústria cresceu e se industrializou, a produção expandiu-se para norte, com Matosinhos, junto ao Porto, a tornar-se um dos centros conserveiros mais importantes do país. No seu auge, no início do século XX, Portugal era um dos maiores exportadores mundiais de sardinha em conserva, abastecendo mercados por toda a Europa e não só. 

Tudo começou como uma solução prática para conservar um peixe altamente perecível, mas com o tempo tornou-se muito mais do que isso. As próprias latas evoluíram para objetos de design, empilhadas em composições coloridas nas montras de conserveiras que vendem muitos dos mesmos produtos há décadas. Em Lisboa, lojas como a Conserveira de Lisboa (Rua dos Bacalhoeiros 34), na Baixa, aberta desde 1930, ou a mais contemporânea The Fantastic World of Portuguese Sardine (Praça Dom Pedro IV 39), transformaram a sardinha em conserva num dos souvenirs comestíveis mais emblemáticos da cidade. Compra-se a lata não apenas pelas sardinhas no seu interior, mas também pela ilustração da embalagem. 

Além do design, as sardinhas em conserva existem em várias versões. As sardinhas em azeite são a opção mais clássica, com o azeite a funcionar tanto como conservante como intensificador de sabor. Tal como acontece com o atum, também há sardinhas em óleo de girassol, mais suaves e um pouco mais económicas. Outras opções incluem sardinhas em molho de tomate, com um perfil mais doce e ácido, que funcionam particularmente bem comidas diretamente sobre pão, e sardinhas em molhos condimentados, que variam consoante a marca e podem incluir limão, alho, malagueta ou combinações destes ingredientes. Alguns produtores também vendem sardinhas em escabeche, uma marinada avinagrada, embora o escabeche de sardinha seja melhor quando feito fresco, como exploramos mais abaixo. 

Em Portugal, comer sardinhas diretamente da lata é perfeitamente legítimo, e não é visto como um compromisso, nem como algo que se faz apenas para poupar tempo ou dinheiro. Um número crescente de restaurantes e bares de vinhos em Lisboa serve conservas como produto de mérito próprio, muitas vezes acompanhadas por pão e um copo de vinho. Lugares como o Sol e Pesca (Rua Nova do Carvalho 44), no Cais do Sodré, uma antiga loja de artigos de pesca transformada em restaurante dedicado às conservas, construíram todo um conceito em torno desta ideia e ajudaram a mudar a perceção das conservas, que passaram de comida de conveniência a algo que vale a pena pedir e saborear à mesa. 

Em casa em Portugal, a forma mais clássica de comer sardinhas em conserva é com batatas cozidas, um fio de azeite e umas gotas de vinagre. Um ovo cozido e um pouco de salada também podem juntar-se ao prato, transformando-o numa refeição rápida, nutricionalmente completa e com sabores muito portugueses. Também pode usar sardinhas enlatadas para fazer saladas, pratos de arroz à moda portuguesa, como o arroz de sardinha de que falamos mais abaixo, e até massas. Falamos de cozinha portuguesa prática do dia a dia no seu melhor. 

Ovas de sardinha  

Opened can of pickled mushrooms in liquid on a wooden surface.

Imagem cortesia de Lata Shop 

Entre as conservas portuguesas, as ovas de sardinha são um daqueles produtos que ajudam a perceber por que é que o mundo das conservas merece mais atenção do que uma compra rápida de recordações. As ovas de sardinha são por vezes apelidadas de “caviar português”. A expressão tem uma componente de marketing, claro, mas isso não quer dizer que este não seja um dos produtos mais delicados e invulgares que se pode encontrar numa lata, e vale certamente a pena provar durante uma estadia em Lisboa. 

Ao contrário das sardinhas em conserva comuns, as ovas de sardinha não são um produto para o dia a dia. São mais difíceis de produzir, recolhidas durante a época de verão, quando as sardinhas fêmeas estãocarregadas de ovas, e mais caras, porque cada sardinha rende apenas uma pequena quantidade e as ovas têm de ser manuseadas com cuidado. Tradicionalmente, são conservadas em azeite com pouco mais do que sal, embora algumas versões mais contemporâneas usem azeite picante para maior intensidade. 

Em termos de sabor, as ovas de sardinha são salinas e profundamente saborosas. Sabem claramente a sardinha, mas de uma forma mais refinada. A textura é granulosa e macia o suficiente para barrar sobre pão ou uma tosta. Tal como faria com caviar, pode colocar um pouco de manteiga no pão ou finalizar com um fio de azeite, para que a gordura ajude a transportar melhor o sabor. Embora tecnicamente seja possível cozinhar com ovas de sardinha, este é um produto que merece ser provado por si só. Se tiver alguma margem no orçamento e quiser conhecer a sardinha portuguesa de uma forma mais rara, recomendamos procurar ovas de sardinha em estabelecimentos lisboetas como A Loja das Conservas (Tv. do Cotovelo 6). 

Escabeche de sardinhas  

Plate with cooked fish, tomato slices, and onions on a patterned dish.

Imagem cortesia de Portal Umami 

O escabeche é uma técnica muito antiga de conservação de peixe já cozinhado numa marinada ácida, normalmente feita com vinagre, azeite, alho, louro e colorau. Este método é anterior à refrigeração em muitos séculos e existe em várias formas no Mediterrâneo e noutras partes do mundo. As suas raízes são geralmente associadas a tradições culinárias persas e árabes, tendo chegado à Península Ibérica durante o período de presença muçulmana e espalhando-se depois por outras cozinhas europeias e, mais tarde, globais. A própria palavra é frequentemente associada ao árabe al-sikbaj, uma preparação agridoce de carne que evoluiu de formas diferentes conforme o lugar. Em Portugal, o método foi sobretudo aplicado ao peixe e, ainda hoje continuamos a cozinhar segundo esta lógica. 

Para preparar escabeche, pode usar sardinhas de tamanho normal ou sardinhas pequenas e jovens, conhecidas como petingas. O peixe é limpo, cozinhado e depois colocado na marinada, quase sempre com bastante cebola às rodelas. Deve repousar no escabeche pelo menos durante um dia, embora possa ficar mais tempo. Durante esse período, a acidez do vinagre continua a atuar sobre o peixe, dando firmeza à carne e aprofundando os sabores. 

O escabeche come-se sempre frio e, mais do que uma refeição completa, é apreciado como petisco ou entrada. Era comum nas tascas tradicionais e, embora hoje não seja tão frequente, ainda é possível encontrá-lo, sobretudo em restaurantes simples ou em zonas junto à água. Em Lisboa, pode provar sardinhas em escabeche em lugares como o Pap’Açôrda (Av. 24 de Julho 49), o Senhor Peixe (Rua da Pimenta, Parque das Nações) ou o Páteo Restaurante (Av. Dom João II 11B). 

Vale a pena lembrar que, depois do século XV, a tradição do escabeche viajou da Península Ibérica para diferentes partes do mundo, levada por navegadores e comerciantes portugueses e espanhóis. Este método chegou à América Latina, onde preparações de peixe e carne marinadas em vinagre continuam presentes em países como o Peru, o México e em várias zonas das Caraíbas. Também chegou às Filipinas, onde pratos de peixe cozinhado em vinagre, como o paksiw, fazem parte de uma história mais ampla de cozinha com acidez, com influências locais e coloniais. E chegou ao Japão, onde a presença portuguesa no século XVI deixou marcas muito claras. Uma delas é o nanban-zuke, uma preparação japonesa em que o peixe é frito e depois marinado num molho agridoce à base de vinagre, com legumes. O termo nanban, que significa “bárbaro do sul”, era usado no Japão para se referir aos portugueses e a outros europeus que chegaram ao arquipélago nessa época, e muitos historiadores da alimentação ligam este prato às tradições ibéricas de escabeche adaptadas ao gosto japonês. 

 Sardinhas fritas  

Person holding food near plate with fried fish, bulgur in a bowl, and lemon slices. 

Imagem cortesia de Pingo Doce 

Embora muitos viajantes procurem sardinhas assadas quando estão em Lisboa, as sardinhas fritas são tão populares entre os locais, ou até mais. Em casa, como nem toda a gente tem grelhador exterior, é mais comum fritar o peixe do que assá-lo no carvão. Por isso, este é um prato que muitos portugueses comem com regularidade. 

Para fazer sardinhas fritas, tal como acontece com muitas outras espécies de peixe frito, as sardinhas são limpas, temperadas com sal, passadas levemente por farinha de trigo ou por farinha de milho fina, e fritas até a pele ficar estaladiça e dourada. Podem ser temperadas com umas gotas de limão antes de comer. Normalmente são servidas com acompanhamentos simples, como batatas cozidas e legumes cozidos ou, ainda melhor, com arroz malandrinho, esse arroz solto e caldoso que em Portugal gostamos de fazer com tomate ou feijão encarnado. 

As petingas fritas também são muito apreciadas e, por serem mais pequenas, poupam-lhe o trabalho de limpar o peixe com garfo e faca à mesa. Fritas inteiras até ficarem bem estaladiças, podem ser comidas por completo, incluindo carne, pele e espinhas finas. Continuam a ser um petisco comum em tascas lisboetas mais antigas e combinam muito bem com uma cerveja fresca. 

Em Lisboa, é mais provável encontrar sardinhas fritas ou petingas nos pratos do dia de restaurantes simples e de cozinha quotidiana do que em menus turísticos. Para orientar a sua procura, recomendamos espreitar os pratos do dia de restaurantes como a Flor da Estrela (Rua João de Deus 11) ou o Restaurante Alfaia (Tv. da Queimada, Bairro Alto), no Bairro Alto. É também provável que encontre jaquinzinhos fritos ou carapauzinhos fritos, que à primeira vista podem parecer muito semelhantes às sardinhas. Convém saber que, nestes casos, estamos a falar de carapaus pequenos. São fritos praticamente da mesma forma, mas são outro peixe. 

Tiborna e torricado de sardinha  

Hands holding a plate with fish-topped toast and vegetables.

Imagem cortesia de Bartolo Bakehouse 

A tiborna e o torricado são duas preparações que podem ser comidas como petisco ou como refeição ligeira, e ambas fazem parte da longa tradição portuguesa de dar bom uso ao pão duro. 

O torricado está fortemente associado ao Ribatejo, sobretudo às zonas de Santarém, Almeirim, Cartaxo e Azambuja. Tradicionalmente, era comida de trabalhadores agrícolas, em particular daqueles que trabalhavam nos campos e nas vinhas das lezírias do Tejo. A ideia era simples e consistia em pegar num pão consistente, muitas vezes já um pouco seco, cortá-lo em fatias, torrá-lo ao lume, esfregá-lo com alho, temperá-lo com sal e regá-lo generosamente com azeite. Esta preparação barata e saciante era mais frequentemente servida com bacalhau assado, mas as sardinhas e outros alimentos grelhados também foram entrando, com o tempo, neste tipo de refeição. A tiborna, por outro lado, pode referir-se de forma muito simples a pão quente regado com azeite português, algo comum na cozinha alentejana. 

Com o passar do tempo, tanto as tibornas como os torricados foram ganhando coberturas que vão do mais básico e rústico a versões mais contemporâneas. É aí que entram a tiborna de sardinha e o torricado de sardinha, muitas vezes feitos com sardinhas assadas. Estas espécies de sanduíches abertas à portuguesa também podem ser preparadas com sardinhas em conserva e com os ingredientes que se quiser acrescentar, sendo comuns os pimentos grelhados, o tomate, a cebola e os pickles. Seja qual for a receita, a lógica é a mesma, com o pão a absorver a gordura e o molho do peixe, o azeite e os temperos, tornando-se tão importante como a própria sardinha. 

Em Lisboa, não é algo que se encontre em todo o lado, mas aparece em menus que trabalham conservas, petiscos e sabores portugueses. Gostamos, por exemplo, do torricado com sardinha do Aldeia (Tv. da Queimada 32), no Bairro Alto. A Tasca da Memória (Tv. da Memória 62) serve por vezes arjamolho com tiborna de sardinha, uma combinação típica do Algarve que junta uma sopa fria de tomate com sardinha sobre pão. O Can the Can (Praça do Comércio 82 83), um dos restaurantes lisboetas mais conhecidos dedicados às conservas portuguesas, também prepara tiborna de sardinha com pimentos verdes e vermelhos. 

Os pratos dos menus vão mudando, mas a boa notícia é que esta é também uma das formas mais fáceis de recriar um prato de sardinha depois da sua viagem. Se levou sardinhas portuguesas em conserva para casa, basta torrar uma fatia grossa de bom pão, esfregá-la ligeiramente com alho enquanto ainda está quente, regar com um fio generoso de azeite e colocar as sardinhas por cima. É uma forma muito simples e deliciosa de saborear Portugal em casa. 

Arroz de sardinha 

Plate of rice with sardines, next to a festival flyer and napkin.

Imagem cortesia de Meet Figueira 

Em Portugal, o arroz é muitas vezes o ingrediente principal de uma refeição, sobretudo quando aparece naquele estilo solto e caldoso a que chamamos arroz malandrinho. A palavra malandrinho pode sugerir algo traquinas, mas à mesa quer dizer que o arroz não foi cozinhado seco. Deve chegar com caldo suficiente para se mexer no prato, transportando o sabor do tomate, da cebola, do azeite, das ervas aromáticas e, neste caso, da sardinha. 

A versão tradicional costuma ser feita com sardinhas frescas, em particular quando estão na época. A base do arroz de sardinha envolve frequentemente cebola, tomate, pimento, louro, arroz carolino, azeite, vinho branco e, além do peixe, um toque de piri-piri e salsa fresca no final. 

Há formas ligeiramente diferentes de tratar o peixe ao preparar este arroz. Alguns cozinheiros juntam as sardinhas limpas, inteiras ou em pedaços, perto do fim da cozedura, deixando que cozinhem suavemente sobre o arroz. Outros preferem filetar as sardinhas primeiro, o que torna o prato mais fácil de comer, sobretudo para quem não quer lidar com espinhas à mesa, embora em Portugal estejamos geralmente habituados a isso desde pequenos. Também pode fazer uma versão mais improvisada com sardinhas em conserva, por exemplo em azeite ou em molho de tomate. Este é um prato português tão caseiro que não é particularmente fácil encontrá-lo em restaurantes. 

O arroz de sardinha tem uma ligação especialmente forte à zona costeira da Figueira da Foz, onde é considerado uma referência da cozinha popular local. Dois dos seus ingredientes principais, a sardinha e o arroz carolino do Baixo Mondego, são produzidos na região. Se viajar até à Figueira da Foz, e em particular até à vila de Buarcos, a norte da cidade, é provável encontrá-lo nos menus com mais regularidade do que noutras zonas do país. 

Caldeirada de sardinhas  

Colorful mixed vegetable and fish stew with potatoes, peppers.

Imagem cortesia de Ruralea 

A caldeirada tem origem nas refeições que os pescadores preparavam depois de um dia de trabalho, usando o peixe com menor valor comercial. O que vinha nas redes e não conseguia ser vendido, como peixes pequenos, peixe danificado ou espécies menos valorizadas pelos clientes, ia para a panela. Na maioria das receitas de caldeirada, o peixe é cozinhado com cebola às rodelas, alho, tomate maduro, pimentos, batatas, azeite, louro, ervas aromáticas e, por vezes, vinho branco. A ideia é deixar tudo cozinhar lentamente, sem mexer demasiado, até o peixe e os aromáticos libertarem sabor para os legumes, sobretudo para as batatas. 

Por todo o país, a caldeirada muda conforme o lugar, a época e o orçamento. Pode ser feita com uma mistura de peixes, incluindo espécies mais firmes como tamboril, raia, congro, cação, garoupa, pata-roxa, ruivo ou qualquer outro peixe adequado para cozer. Algumas versões incluem marisco. Umas são mais marcadas pelo tomate, outras mais caldosas. No Algarve e em algumas zonas da costa, podem aparecer ervas como coentros ou poejo, enquanto noutras regiões a salsa é mais comum. 

A caldeirada de sardinhas é uma versão humilde e sazonal da caldeirada. Mas, como a sardinha é delicada, não basta juntá-la à panela e esquecê-la ao lume durante uma hora. Para fazer caldeirada de sardinhas, os legumes e as batatas precisam de tempo para amolecer e criar molho, mas as sardinhas são normalmente acrescentadas com cuidado e cozinhadas apenas o suficiente para dar sabor ao caldo sem se desfazerem por completo. Algumas receitas de estilo mais tradicional montam o prato em camadas desde o início, colocando batatas, cebola, tomate e sardinhas na panela com azeite e temperos. Outras cozinham primeiro os legumes e juntam as sardinhas mais tarde. Em ambos os casos, as melhores versões respeitam a textura do peixe. A caldeirada de sardinhas funciona muito bem precisamente por causa da gordura natural deste peixe. Uma boa sardinha de verão liberta gordura suficiente durante a cozedura para enriquecer o caldo de uma forma que os peixes mais magros simplesmente não conseguem, e é essa riqueza que torna a caldeirada de sardinhas especial, apesar de ser preparada com ingredientes modestos. 

A caldeirada de sardinhas não é tão fácil de encontrar em Lisboa como as sardinhas assadas em junho ou as sardinhas em conserva nas lojas. Pode aparecer como prato do dia em restaurantes tradicionais, sobretudo quando as sardinhas estão na época, mas não costuma ser um item fixo no menu. Se fizer uma escapadinha a uma das zonas costeiras perto de Lisboa, em particular Setúbal, talvez consiga encontrá-la no Peixe no Largo, um restaurante que serve caldeirada de sardinhas pelo menos durante a Semana da Sardinha da cidade, embora valha sempre a pena confirmar antes de ir. 

Doces portugueses em forma de sardinha, mas que não levam peixe 

Cup of espresso with fried pastries on a plate. 

Imagem cortesia de de.Gostar 

A esta altura, já deve ser claro que em Portugal levamos a sardinha muito a sério. Além dos pratos salgados que exploramos acima, também fazemos doces que parecem sardinhas mas que, na maioria dos casos, não contêm peixe nenhum. Em Lisboa, isto é fácil de ver, já que lojas especializadas e lojas de recordações vendem chocolates e bolachas em forma de sardinha. 

As sardinhas doces mais interessantes do ponto de vista histórico, no entanto, encontram-se longe de Lisboa, em Trancoso, no distrito da Guarda. As sardinhas doces de Trancoso são um doce conventual regional em forma de sardinha, normalmente feito com uma massa estaladiça recheada com açúcar, ovos e amêndoa, em vez de qualquer ingrediente vindo do mar. Estes doces são moldados para se parecerem com sardinhas e existe até uma Confraria das Sardinhas Doces de Trancoso dedicada à sua proteção. 

Segundo a tradição local, as sardinhas doces de Trancoso terão surgido no século XVII, no antigo convento de Santa Clara, em Trancoso. Uma das explicações mais repetidas para a forma curiosa deste doce diz que nasceu numa região do interior onde o peixe fresco era historicamente difícil de obter com regularidade. Enquanto se esperava pela chegada das verdadeiras sardinhas vindas da costa, as cozinhas conventuais ofereciam uma imitação doce. Se viajar até esta zona do país, recomendamos visitar a Casa da Prisca, um dos produtores mais conhecidos da região, que continua a fazer esta especialidade regional. 

Também houve experiências mais excêntricas. Algumas gelatarias portuguesas já brincaram com a sardinha como sabor salgado de gelado, embora tudo indique que isso tenha sido feito mais como provocação e estratégia de marketing do que como verdadeira vocação doce. Estas experiências pontuais com sardinha levaram alguns curiosos até lugares como a Oliveira Gelados, em Santa Maria da Feira, mas, por agora, isto é mais uma experiência culinária do que uma forma deliciosa de combater o calor de verão em Lisboa

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