Guia da cultura do chá em Portugal
Portugal é um país de café. Basta passar algum tempo em Lisboa ou noutra cidade portuguesa para perceber como o café está ligado às rotinas diárias, aos comportamentos sociais e até à linguagem. Quando dizemos “vamos tomar um café”, o que queremos realmente dizer é “vamos conviver”, mesmo que ninguém acabe a beber café, embora isso, muito provavelmente, aconteça na mesma. A cultura do café em Portugal é, sem dúvida, muito forte.
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Com o chá não acontece o mesmo e os visitantes raramente associam Portugal a chá. Também os locais, de um modo geral, não costumam falar de chá enquanto “cultura”, da mesma forma que fazem com o café, ainda que o chá tenha estado sempre presente nos hábitos de consumo de bebidas em Portugal, algo que faz todo o sentido quando olhamos para a nossa história. A relação de Portugal com o chá está ligada ao seu passado marítimo e comercial, nomeadamente à chegada dos portugueses à Ásia a partir do século XVI, como veremos mais à frente.

Imagem cortesia de Chá Camélia
Quando falamos de chá em Portugal, é importante fazer uma distinção. Por um lado, temos o chá em sentido estrito, a bebida feita a partir da planta Camellia sinensis (na foto acima), a planta que dá origem aos chás preto e verde que hoje reconhecemos com mais facilidade. Estas plantas começaram a tornar-se mais comuns no quotidiano português depois do século XVI, quando Portugal estabeleceu rotas de comércio de longo curso que ligavam a Europa à Ásia.

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Por outro lado, temos o chá tal como é usado na linguagem do dia a dia. Na prática, o chá refere-se muitas vezes não só às folhas da Camellia sinensis, mas também a uma grande variedade de bebidas de plantas, como cidreira, camomila ou lúcia-lima. Tecnicamente, estas bebidas são infusões, não chá, e a maioria é até naturalmente isenta de cafeína. Culturalmente, porém, esta diferença costuma ser secundária, já que todas podem cumprir a mesma função de aquecer, ajudar na digestão ou servir de remédio caseiro em situações de constipação ou outros desconfortos ligados à saúde e ao bem-estar.
Do ponto de vista histórico, a ligação de Portugal ao chá, isto é, ao chá propriamente dito, está intimamente ligada à época dos Descobrimentos.
A história do chá em Portugal
Apesar de, durante muitos séculos, terem existido rotas terrestres de longa distância que ligavam a China e a Ásia Central ao mundo islâmico e, eventualmente, à Europa Ocidental, não há evidência histórica que mostre que o chá tenha chegado de forma significativa ao Mediterrâneo. O chá é um produto delicado, que se degrada facilmente com o tempo e a humidade, por isso não era uma mercadoria que funcionasse bem num comércio feito por rotas terrestres lentas e fragmentadas, dependentes de múltiplos intermediários e focadas sobretudo em especiarias e outras plantas medicinais secas.
Só depois de 1500, com as novas rotas marítimas que ligavam a Europa ao oceano Índico e ao Extremo Oriente, é que os europeus começaram verdadeiramente a descobrir o chá. Em 1557, os portugueses já tinham estabelecido rotas comerciais com o sul da China, nomeadamente através de um posto permanente em Macau, que se tornaria um ponto de contacto crucial entre a China e a Europa. É neste momento que os europeus, incluindo os portugueses, passam a encontrar o chá não como um ingrediente medicinal raro, mas como uma bebida do quotidiano, extremamente comum na sociedade chinesa e consumida por todas as classes sociais ao longo do dia.

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A partir daqui, o chá começou também a entrar na Europa. Comerciantes, missionários e administradores portugueses a viver na Ásia estiveram entre os primeiros europeus a experimentar o chá como parte da vida diária fora de casa. Na China, o chá não era uma bebida ocasional, pelo contrário, consumia-se diariamente, muitas vezes até em conjunto com as refeições, e porque ajuda a manter a atenção e proporciona um bem-estar geral. Com o tempo, o chá começou a circular pelas redes de comércio marítimo em direção à Europa, muitas vezes lado a lado com porcelanas e seda. Ainda assim, o facto de o chá entretanto chegar aos mercados europeus não significou que tivesse passado logo a ser largamente consumido em Portugal. Na verdade, o consumo doméstico manteve-se limitado durante séculos, sobretudo a círculos da elite, ambientes cortesãos e contextos médicos, em claro contraste com os hábitos de consumo de chá na Ásia.
O chá surge em boticas e textos médicos como bebida digestiva ou restauradora, encaixando numa cultura já existente de remédios à base de plantas. Em vez de substituir as infusões locais, passou a ser consumido ao lado destas, o que talvez ajude a explicar porque é que, em português, a palavra chá se tornou uma categoria ampla que abrange tanto o chá feito a partir da Camellia sinensis como as infusões de plantas locais.

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Ao mesmo tempo, a cultura de bebidas em espaços públicos em Portugal seguia noutra direção. A partir do século XVIII, o café ganhou protagonismo, graças à produção que chegava do Brasil. O café tornou-se uma bebida social e pública, enquanto o chá também era consumido, mas de forma mais doméstica e, de certo modo, menos “visível”. O vinho continuou a dominar à mesa, ao contrário do que acontecia na China, onde o consumo de chá durante as refeições era comum.

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À medida que o chá se foi tornando mais abundante e os preços baixaram gradualmente, passou a ser cada vez mais familiar para os lares portugueses, ainda que nunca se tenha transformado num elemento de identidade nacional, como veio a acontecer com o café. Um dos episódios mais curiosos da história do chá na Europa, porém, aconteceu fora de Portugal. No século XVII, D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV de Portugal, casou com Carlos II de Inglaterra, como parte de uma aliança diplomática. Catarina já tinha o hábito de beber chá e levou esse costume para a corte inglesa. O chá não era desconhecido em Inglaterra na altura, mas a sua preferência ajudou a elevá-lo de importação relativamente de nicho a bebida da moda nos círculos aristocráticos. Com o tempo, esta influência contribuiu para a associação do chá à vida social inglesa. Aquilo que hoje é muitas vezes lembrado como uma tradição tipicamente britânica tem, em certa medida, uma ligação portuguesa na sua origem.
A contribuição mais distintiva de Portugal para a cultura europeia do chá, no entanto, chegaria mais tarde. No século XIX, começou o cultivo de chá nos Açores, na ilha de São Miguel. As experiências com a produção de chá foram incentivadas pelo clima húmido e pelos solos vulcânicos do arquipélago, numa altura em que Portugal procurava novas produções agrícolas. Ainda hoje, Portugal continua a ser o único país da Europa com plantações de chá em atividade comercial, algo que surpreende muitos visitantes e até alguns portugueses.
Produção de chá em Portugal
Quando se fala em chá português, a maioria das pessoas pensa logo nos Açores. A ilha de São Miguel produz e transforma chá há quase dois séculos e continua a concentrar praticamente toda a produção do país. Ainda assim, hoje em dia também se cultiva chá, em quantidades bastante mais pequenas, no território continental.

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Produção de chá nos Açores
Quando se diz que Portugal é o único país da Europa que produz chá de forma comercial, está-se, na prática, a falar de um lugar específico: a ilha de São Miguel, nos Açores, em pleno Atlântico, a cerca de 1500 quilómetros de Portugal continental.
A história começa no início do século XIX, mas a ideia já vinha de trás. Já na segunda metade do século XVIII havia plantas de chá nos Açores, provavelmente trazidas como curiosidade botânica em navios de regresso da Ásia. A produção propriamente dita só arrancaria mais tarde. Por volta de 1820, um oficial açoriano chamado Jacinto Leite, então comandante da Guarda Real do rei de Portugal no Brasil, trouxe sementes de Camellia sinensis do Rio de Janeiro para São Miguel e plantou-as como experiência agrícola.

Imagem cortesia de Gorreana
Nessa altura, a economia da ilha dependia fortemente das laranjas. Durante décadas, São Miguel exportou grandes quantidades de citrinos para o norte da Europa, sobretudo para o Reino Unido. Até que a doença chegou e, a partir da década de 1860, os laranjais foram sendo dizimados por pragas, colapsando uma fonte de rendimento que parecia segura. A procura de culturas alternativas tornou-se urgente e o chá surgiu como uma das apostas mais promissoras.
Entra em cena José do Canto, proprietário local e membro da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, que levou o chá muito mais a sério do que um simples ensaio. Em 1860 começou a importar plantas de chá e, em 1878, a sociedade agrícola convidou dois especialistas de Macau, Lau-a-Pan e o seu intérprete Lau-a-Teng, para virem a São Miguel ensinar os agricultores locais a cultivar e a transformar o chá de forma adequada.
As condições revelaram-se quase ideais. A costa norte de São Miguel oferece uma combinação rara de clima ameno e húmido, com chuva regular, praticamente sem geadas, e solos argilosos e ácidos de origem vulcânica. As plantas de chá apreciam estabilidade e não gostam de extremos, e São Miguel, com as suas encostas frequentemente envoltas em nevoeiro e temperaturas constantes, tinha precisamente isso. O isolamento insular significou também menos pragas e doenças do que noutras regiões produtoras, o que facilitou, desde cedo, a opção por dispensar pesticidas, algo que felizmente se mantém até hoje.
No final do século XIX e no início do século XX, o chá já era uma verdadeira indústria, com várias plantações e cerca de dez fábricas em atividade no pico da produção, concentradas sobretudo nas encostas do norte. As colheitas decorriam de abril a setembro e grande parte do trabalho, especialmente a apanha das folhas, era feita por mulheres e crianças, num padrão semelhante ao de outras regiões produtoras de chá, aqui em escala muito menor.

Imagem cortesia de A Vida Portuguesa
O nome que quase toda a gente reconhece hoje é Gorreana. Fundada em 1883, o Chá Gorreana é a mais antiga plantação de chá em atividade na Europa e uma das duas únicas ainda em funcionamento nos Açores. A propriedade ocupa cerca de 40 hectares no norte de São Miguel e produz entre 30 e 40 toneladas de chá por ano, sobretudo chá preto e verde, consumidos em grande parte em Portugal, mas também exportados. A produção mantém-se relativamente tradicional, mecanizada mas com baixos níveis de intervenção, sem recurso a pesticidas, herbicidas ou fungicidas, graças ao clima e ao isolamento da ilha.
A poucos quilómetros dali, encontramos o Chá Porto Formoso (na foto abaixo). Esta fábrica foi fundada na década de 1920 e funcionou até aos anos 80, fornecendo tanto o mercado interno como a exportação. Quando fechou, pareceu ser mais uma vítima das mesmas pressões que estavam a sufocar a indústria do chá na ilha, incluindo a concorrência global, a mudança de hábitos de consumo, a instabilidade económica durante as guerras mundiais e a emigração açoriana. Em 1998, porém, o Porto Formoso foi recuperado, desta vez com um duplo propósito, combinando uma produção de pequena escala com um espaço museológico pensado para dar a conhecer as plantações de chá dos Açores. É possível visitar, percorrer as máquinas antigas, observar as diferentes fases de transformação e terminar com uma chávena de chá com vista para os socalcos que descem até ao mar, algo que também se pode fazer na Gorreana, a plantação que mais turistas recebe por ser muito mais divulgada.

Imagem cortesia de byAçores
No seu auge, por volta de meados do século XX, a indústria de chá de São Miguel exportava cerca de 250 toneladas de chá por ano, números bastante significativos para uma pequena ilha no meio do Atlântico. Com o tempo, porém, o setor encolheu. O chá barato de grandes produtores, em particular de Moçambique dentro do antigo império português e, mais tarde, de outras regiões da Ásia, tornou os custos açorianos menos competitivos. As guerras mundiais perturbaram o comércio e, à medida que muitos açorianos emigraram, reduziu-se drasticamente a mão de obra local e também o mercado interno. Fábricas foram fechando uma a uma até que, no final do século XX, apenas a Gorreana se mantinha em funcionamento contínuo, com o Porto Formoso a regressar mais tarde num modelo híbrido entre indústria e museu.
Os Açores têm uma cultura de chá compacta, mas muito particular. Em termos de sabor, os chás pretos açorianos são geralmente suaves e com pouca adstringência, mais delicados do que muitas misturas fortes associadas aos conhecidos breakfast tea. Os chás verdes tendem a ser limpos e diretos, sem notas demasiado herbáceas. Isto encaixa bem nas preferências portuguesas, já que o chá é habitualmente bebido simples, por vezes com limão, raramente com leite e quase nunca com a doçura intensa que se encontra noutras tradições de chá, como, por exemplo, na Índia ou na Malásia.
Hoje, o setor do chá em Portugal é pequeno, mas reconhecido. O país está listado como produtor de chá pela FAO (a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e São Miguel continua a ser a única região da União Europeia onde o chá é cultivado e transformado comercialmente neste volume, ainda que existam pequenas plantações experimentais noutros locais. Para quem viaja, as plantações são um desvio fácil num roteiro pela ilha. Ao visitar a Gorreana ou o Porto Formoso, na ilha de São Miguel, pode, por um valor muito acessível, caminhar pelos campos, visitar as áreas de produção e beber uma chávena de chá exatamente no local onde as folhas foram colhidas e processadas.
Os Açores não transformam Portugal, de repente, num “país do chá” como muitos visitantes imaginam quando pensam no Japão ou na China. Mas vale a pena reconhecer que Portugal fez parte das primeiras rotas comerciais que puseram o chá a circular pelo mundo e que, hoje, os socalcos de uma ilha vulcânica no meio do Atlântico estão a produzir chás surpreendentemente delicados e cheios de carácter, que podemos apreciar aqui mesmo em Portugal.
Produção de chá em Portugal continental
Durante muito tempo, chá em Portugal significava essencialmente chá importado ou, quando muito, folhas vindas dos Açores. No século XIX, por exemplo, foram plantados arbustos de chá no Parque da Pena, em Sintra, como parte de um projeto de jardim experimental, mas isso nunca evoluiu para uma cultura com propósito comercial. Apenas algumas dezenas desses exemplares originais sobrevivem hoje como curiosidade histórica.
A primeira tentativa séria de mudar este cenário chegaria muito mais tarde, no norte do país. Na região de Porto e Vila do Conde, as camélias são cultivadas há muito tempo pelas suas flores, graças a um clima fresco e chuvoso e a solos ácidos que favorecem a planta. As mesmas condições revelaram-se ideais para o chá. Em 2011-2012, a jornalista Nina Gruntkowski e o produtor de vinho Dirk Niepoort plantaram cerca de 200 arbustos de Camellia sinensis no jardim da sua casa, no Porto. Quando as plantas prosperaram, mudaram-nas, em 2014, para o seu local definitivo na Quinta de Fornelo, perto de Vila do Conde, dando origem ao projeto Chá Camélia.

Imagem cortesia de ECO-SAPO
Hoje, o Chá Camélia é considerado a primeira plantação de chá comercial em Portugal continental e um dos primeiros produtores de chá biológico na Europa continental. O projeto conta atualmente com cerca de 12.000 plantas de chá em aproximadamente dois hectares, cultivadas segundo princípios biológicos e biodinâmicos. O produto de referência é o Nosso Chá, um chá verde de pequena produção, feito num estilo inspirado no Japão, em que as folhas são colhidas à mão a partir do início da primavera, processadas de forma delicada e pensadas para múltiplas infusões, em vez de uma única chávena muito forte. Paralelamente, experimentam o uso de flores de chá (Florchá) e criam misturas que combinam o seu próprio chá com ervas ou flores, ao mesmo tempo que importam e distribuem chás japoneses de elevada qualidade, provenientes de pequenos produtores familiares.
Em termos de sabor, os chás do Chá Camélia são bastante diferentes do perfil açoriano. Sendo chás verdes trabalhados num estilo japonês, tendem a destacar a frescura e um carácter vegetal mais suave, algo que agrada a quem já tem curiosidade por sencha, gyokuro ou outros chás verdes do Leste Asiático.

Imagem cortesia de Chá Camélia
Portugal continental ainda não tem a escala nem a história de São Miguel no que toca ao chá, mas é, ainda assim, relevante. Em conjunto, as plantações açorianas e projetos de pequena escala como o Chá Camélia mostram que a produção de chá em Portugal tem muito potencial e merece ser explorada por quem gosta de chá e visita o nosso país.
Como se bebe chá em Portugal hoje
Para compreender a cultura do chá em Portugal, é preciso prestar atenção à linguagem e ao contexto. Como vimos acima, no português do dia a dia, a palavra chá é bastante flexível. Pode significar a bebida feita a partir da planta Camellia sinensis, mas é igualmente usada para falar de infusões de ervas, como cidreira, camomila, hortelã ou muitas outras plantas locais. Tecnicamente, isso são infusões e não chá. Na prática, porém, a maioria das pessoas não se preocupa com essa distinção.
Há gerações que as infusões fazem parte de um saber doméstico transmitido de forma informal, com usos muito enraizados, como cidreira para os nervos e para dormir, camomila para a digestão, ou lúcia-lima depois do jantar. Em Portugal, estas bebidas, tal como o chá propriamente dito, estão mais associadas a estar cansado, adoentado ou “com o estômago esquisito” do que à ideia de estar desperto. Enquanto noutros países o chá se bebe muitas vezes pelo teor de cafeína, por cá, de um modo geral, recorremos antes ao café para esse efeito e o chá fica para quando o café parece demasiado pesado, ou simplesmente apetece algo mais leve e reconfortante.

Imagem cortesia de Pastelaria Careca
Numa pastelaria típica, o chá pede-se à chávena ou ao bule, quase sempre preparado com saqueta. O bule é muitas vezes para partilhar, mas não obrigatoriamente. O chá preto, por defeito, é preparado relativamente fraco, bastante mais claro do que aquilo a que poderá estar habituado no Reino Unido ou na Índia. Raramente chega à mesa com leite, a menos que o peça de propósito. Por isso, se gosta de chá escuro e intenso, como é habitual em países onde se bebe com leite, talvez faça sentido pedir uma saqueta extra.
O ritual de preparação é mínimo. Em casa e nos cafés, o chá faz-se quase sempre com saquetas e não há grande tradição de controlar tempos de infusão, aquecer bules ou discutir temperaturas da água, como acontece em países com uma cultura de chá mais vincada. Ainda assim, as coisas têm vindo a mudar e, nos últimos anos, o interesse pela qualidade do chá, pela origem e pelos métodos de preparação tem crescido, acompanhando o que se passa no resto do mundo. Com esta curiosidade acrescida, alguns cafés e pastelarias em Lisboa começaram a servir chás melhores, incluindo chá em folha, chá dos Açores e blends mais específicos em que o sabor é levado mais a sério.
Os supermercados também passaram a ter uma oferta mais alargada, com misturas de melhor qualidade, chás em folha e referências vindas de países como o Japão, o Sri Lanka e, de forma muito relevante, os Açores. Lojas especializadas em chá, que em tempos eram raras, começaram a surgir em Lisboa e no Porto, a pensar em quem procura chás de origem única, misturas artesanais e pessoas ao balcão que saibam aconselhar para lá do “preto ou verde?”. Nesses espaços é mais provável encontrar oolong chinês, matcha japonês ou sencha bem escolhido do que o típico pacote de chá preto de supermercado.
Lisboa está também a viver uma diversificação na forma como se bebe o chá. A par do chá quente clássico, o chá gelado (ou iced tea) aparece com mais frequência nas cartas, sobretudo nos meses quentes, por vezes feito em casa, outras vezes não, e o bubble tea também já chegou por estes lados. São tendências importadas, que não têm nada de específico português, mas em contexto urbano, e sobretudo entre os mais novos, contam quando falamos de como o chá é consumido hoje. Encontram-se ainda curiosidades como o “chá de pastel de nata”, uma mistura aromatizada inspirada no pastel de nata, o ícone da doçaria lisboeta. Não é de todo um chá tradicional português, mas é um bom exemplo de como Lisboa absorve ideias de fora e as reenquadra sobretudo a pensar em quem nos visita.

Imagem cortesia de Portugal dos Meus Amores
Além de tudo isto, uma das tendências mais fortes dos últimos anos é o orgulho renovado no chá açoriano. Durante muito tempo visto sobretudo como curiosidade agrícola de São Miguel, o chá da Gorreana e do Porto Formoso está a ser redescoberto por uma nova geração. Chefs, escanções e lojas especializadas têm vindo a destacá-lo como produto genuinamente local, por vezes usando-o em sobremesas, gelados ou até cocktails. O chá português, seja dos Açores ou de projetos mais recentes no continente, funciona também muito bem como lembrança comestível, pois é leve, fácil de levar na mala e cheio de significado, especialmente agora que já conhece melhor a sua história e tem contexto.
Onde experienciar a cultura do chá em Lisboa
Se tem curiosidade em conhecer de perto a cultura do chá em Portugal, Lisboa é provavelmente o melhor sítio para começar. Pode querer comprar chá açoriano para levar para casa, sentar-se para um verdadeiro chá da tarde ou participar numa experiência mais específica, como uma cerimónia de chá.
Lojas especializadas em chá e sítios para comprar bom chá em Lisboa
Companhia Portugueza do Chá
Esta é uma loja de chá a sério, instalada numa antiga sapataria, com prateleiras alinhadas de latas, balanças e bules. Criam as suas próprias misturas com chás de várias partes do mundo e dão especial atenção às ligações portuguesas, incluindo chás dos Açores e colaborações como o Chá das Ilhas, desenvolvido com A Vida Portuguesa. Pode cheirar, provar, fazer perguntas e sair de lá com chá a granel que tem, de facto, personalidade.
📍Rua do Poço dos Negros 105, 1200-337 Lisboa
https://companhiaportuguezadocha.com
Imagem cortesia de Companhia Portugueza do Chá
Pérola do Rossio
Mais uma Loja com História e uma referência entre as casas tradicionais de chá e café no centro de Lisboa. Aberta desde 1923 e ainda na mesma família, a Pérola do Rossio fica na Praça D. Pedro IV, em plena baixa lisboeta. Lá dentro, café e chá dividem o protagonismo, com lotes de café torrados para a casa, grãos vindos do Brasil, Timor, São Tomé, Colômbia ou Guatemala, e uma longa lista de chás vendidos a granel, em latas ou em pacotes, incluindo referências da China, Japão, Índia e Açores, como a Gorreana e o Porto Formoso. À volta, as prateleiras enchem-se de tudo o que naturalmente acompanha uma boa chávena, como chocolates, bolachas, compotas e afins.
📍Praça Dom Pedro IV 105, 1100-202 Lisboa
Imagem cortesia de Comércio com História
A Vida Portuguesa
Esta marca tem lojas no Chiado, no Intendente e dentro do popular Time Out Market. O seu objetivo é mostrar marcas portuguesas e isso inclui a Gorreana, de São Miguel, bem como latas desenvolvidas em parceria com a Companhia Portugueza do Chá, como o Chá das Ilhas, que combina chás pretos dos Açores e da Índia.
📍No Chiado: Rua Nova do Almada 72, 1200-289 Lisboa
📍No Intendente: Largo do Intendente Pina Manique 23, 1100-285 Lisboa
📍Dentro do Time Out Market: Av. 24 de Julho 49, 1200-109 Lisboa
https://www.avidaportuguesa.com/
Imagem cortesia de A Vida Portuguesa
Pérola do Chaimite
É um daqueles clássicos lisboetas que provam que as antigas casas de chá e café ainda não desapareceram por completo. Aberta desde 1938 e classificada como Loja com História, a Pérola do Chaimite especializa-se em prazeres como chocolates, bolachas, compotas, doces, licores, café, chás, infusões e toda a parafernália de que possa precisar para os preparar e guardar em casa. É uma ótima loja familiar para quem quer ver como os lisboetas compravam chá e café antes de os supermercados dominarem o mercado.
📍Av. Duque de Ávila 38, 1050-083 Lisboa
https://lojascomhistoria.pt/shops/perola-do-chaimite
Imagem cortesia de Lojas Com História
Empório do Chá
Aqui trabalha-se com mais de 250 variedades de chás e infusões, com folhas vindas de países como a China, o Japão, a África do Sul e os Açores, permitindo provar clássicos, misturas aromatizadas e infusões de ervas. Acompanhando o chá, servem comida de conforto, incluindo scones, bolos e quiches feitos em casa. Vale a pena visitar o Empório do Chá para fazer uma pausa reconfortante ou para comprar chás a granel, acessórios e loiça de chá para levar consigo.
📍Av. de Paris 17A, 1000-191 Lisboa
Imagem cortesia de mbbl no Happy Cow
Moy – Mercearia Fina
Fundada em 1975, no coração do Príncipe Real, a Moy é uma mercearia fina que trata o chá em modo “alta-costura”. Não é uma casa tradicional portuguesa de chá e café, mas uma loja gourmet que traz para Lisboa algumas das marcas de chá mais prestigiadas do mundo, como Kusmi, Mariage Frères, Dammann Frères ou Sirocco. Nas prateleiras encontra uma vasta seleção de chás pretos, verdes, brancos e oolong, além de infusões, bem como café, conservas, bolachas, chocolate e outros produtos delicatessen. É o sítio certo para abastecer a despensa com chás de topo ou comprar uma lata bonita para oferecer.
📍Rua Dom Pedro V 111, 1250-095 Lisboa
https://themoyshop.com/index.php
Imagem cortesia de Moy no Facebook
El Corte Inglés
Este é um dos grandes armazéns mais completos de Lisboa. No supermercado e na zona do Club del Gourmet encontra várias referências da Gorreana, como chás preto e verde em folha solta e em saquetas, às vezes lado a lado com xaropes de chá e outros produtos relacionados. Não é uma loja especializada em chá, mas é um bom sítio para comprar vinho português, queijos regionais e, já agora, um excelente chá português.
📍Av. António Augusto de Aguiar 31, 1069-413 Lisboa
www.elcorteingles.pt
Imagem cortesia de El Corte Inglés
Mercearia dos Açores
Se procura especificamente sabores dos Açores, a Mercearia dos Açores funciona quase como uma pequena embaixada das ilhas. Nas prateleiras da loja encontram-se queijos, licores, conservas de peixe e chás Gorreana e Porto Formoso, para que possa abastecer-se de chá açoriano sem sair de Lisboa.
📍Rua da Madalena 115, 1100-318 Lisboa
https://merceariadosacores.pt
Imagem cortesia de Mercearia dos Açores no Facebook
Tea Shop Chiado
Esta é uma loja de uma marca internacional de chá e não um projeto especificamente português, mas continua a ser uma boa paragem para quem procura variedade. Dentro dos Armazéns do Chiado, vendem chás e infusões a granel, com mais de uma centena de referências, embora se concentrem sobretudo em misturas aromatizadas e origens clássicas de vários países, em vez de produtores portugueses. É um sítio interessante para experimentar sabores novos, mas não o ideal se estiver à procura de chá dos Açores.
📍Armazéns do Chiado, R. do Carmo 2, 1200-094 Lisboa
https://teashop.com
Imagem cortesia de Shopping Spirit
Onde beber chá em Lisboa
Almada Negreiros Lounge & Bar no Hotel Ritz Four Seasons
Se lhe apetece um chá da tarde cuidado e bem encenado, este lounge do Four Seasons, junto ao Parque Eduardo VII, é dos sítios mais clássicos de Lisboa. O serviço acontece numa sala ampla, cheia de obras inspiradas no pintor modernista Almada Negreiros. Aqui o chá é um verdadeiro ritual, com uma seleção cuidada de chás de qualidade servidos em conjunto com uma torre de sandes finas, scones ainda mornos e pequenos doces da pastelaria do hotel, muitas vezes com toques sazonais ou temáticos. Não é barato, mas vale a pena para quem quer experimentar a versão “hotel de luxo” da cultura do chá em Lisboa.
📍Rua Rodrigo da Fonseca 88, 1099-039 Lisboa
www.fourseasons.com/lisbon/dining/lounges/almada-negreiros-lounge-and-bar
Imagem cortesia de Four Seasons
Palacete Tea House no Chafariz D’el Rei
Escondido num edifício neo-mourisco com vista para o rio, em Alfama, o Palacete Tea House tem apenas algumas mesas distribuídas pelos salões deste edifício do século XIX. O “5 o’clock tea” é uma experiência completa, com tabuleiros cheios de pães e croissants, scones com compotas caseiras, tábuas de charcutaria e queijo, além de doces como pretzels, bolas de Berlim e pastéis de nata, tudo servido com uma seleção de chás ou café. Funciona apenas com reserva, por isso, se lhe apetecer abrandar o ritmo com um bule de chá e vistas para o Tejo, convém planear com alguma antecedência.
📍Tv. Chafariz del Rei, 6 1100-140 Lisboa
https://chafarizdelrei.com/en/home
Imagem cortesia de Chafariz D’el Rei
EPIC Tea Journey no Hotel EPIC SANA Lisboa Amoreiras
No EPIC SANA Lisboa, na zona das Amoreiras, a hora do chá transforma-se numa pequena volta ao mundo com o “EPIC Tea Journey – Flavours of the World”, servido no bar Scale. Todos os dias, a meio da tarde, é proposto um chá da tarde temático em que a comida se inspira de forma assumida em várias cozinhas, tais como a portuguesa, oriental, europeia ou africana, apresentada em pequenas porções salgadas e doces. Para acompanhar há uma seleção de chás artesanais Ronnefeldt, e é possível acrescentar espumante rosé para quem quiser tornar a experiência ainda mais especial.
📍Av. Eng. Duarte Pacheco 15, 1070-100 Lisboa
https://www.sanahotels.com/pt/restaurantes-bares/cha-da-tarde
Imagem cortesia de SANA Hotels
Pastelaria Querubim
Beber chá em Lisboa não tem de significar bandejas de prata e salas de hotel, e a Querubim, em Telheiras, é um bom exemplo disso. Esta pastelaria de bairro, conhecida pela sua própria linha de bolachas, faz um serviço de chá ao estilo inglês bastante competente, com leite disponível para quem quiser. Servem chá Tetley para quem só procura uma bebida quente reconfortante, mas também trabalham uma gama mais interessante da marca italiana Tea House, com misturas como hortelã-pimenta, ervas e mel ou “maçã oriental”, perfeitas para ficar a ler ou a conversar sem pressa. Pode acompanhar o bule com torradas generosas, fatias de bolo ou miniaturas variadas, num ambiente totalmente fora dos circuitos turísticos, sendo esta uma forma muito real e lisboeta de “ir tomar um chá”.
📍Alameda Q.ta de Santo António, 1600-675 Lisboa
Imagem cortesia de Querubim
Confeitaria Nacional
Para uma versão bem lisboeta da hora do chá, a Confeitaria Nacional, na Praça da Figueira, é difícil de superar. Esta confeitaria do século XIX serve chá num ambiente assumidamente clássico, em plena Baixa. Pode pedir uma chávena individual ou um bule para partilhar, escolhendo de uma pequena seleção de chás pretos, verdes e infusões, mas o grande motivo para vir aqui é o que acompanha a chávena. Fatias de pão-de-ló e outros bolos, bolachas finas, doces conventuais e, na época de Natal, o famoso bolo rei e outros bolos tradicionais. O espaço tem um ar ligeiramente solene sem ser excessivo e é um dos poucos sítios na baixa onde “ir tomar chá” ainda implica loiça a sério e a sensação de que as coisas sempre se fizeram assim.
📍Praça da Figueira 18B, 1100-241 Lisboa
https://confeitarianacional.com
Imagem cortesia de Lojas Com História
Outras experiências ligadas ao chá em Lisboa
Teapot – Workshops da sommelier de chá Margarida Franco
A Teapot é, antes de mais, uma loja de chá online, mas está também por detrás de alguns dos workshops de chá mais interessantes que acontecem em Lisboa. Coordenado pela tea sommelier Margarida Franco, o programa costuma ter lugar em espaços parceiros, como o Château Portugal, e centra-se em oficinas temáticas dedicadas a origens específicas, como por exemplo China, Japão, Índia e Ceilão, bem como numa sessão focada em Portugal, que destaca chás açorianos e outros projetos nacionais. Cada workshop combina uma introdução teórica com uma prova comentada de vários chás, onde se aprende a analisar aroma, sabor, textura e variáveis de preparação, muitas vezes com pequenos acompanhamentos a harmonizar.
📍Compre e inscreva-se online em:
Imagem cortesia de Teapot
Feng Shui Tea House Lisbon
O Feng Shui Tea House é uma experiência de chá completa, organizada em ambiente doméstico em Lisboa, onde tudo gira em torno da cerimónia, da intenção e da atenção ao detalhe. Em vez de ir a um café, reserva-se um horário e entra-se numa sessão guiada. Há provas de chá em modo cerimonial, estruturadas quase como um omakase de chá, cerimónias mais formais em que se acompanha cada etapa de preparação e serviço, e até experiências que terminam com leitura das folhas. É uma proposta pensada para quem quer explorar um lado mais lento e íntimo da cultura do chá em Lisboa.
📍Rua Augusto Rosa 14, 1100-532 Lisboa
https://linktr.ee/teahouselisbon
Imagem cortesia de Feng Shui Tea House no Google
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