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Comidas que não sabia que eram portuguesas

Quando a Era dos Descobrimentos começou há 500 anos atrás, o fenómeno que hoje conhecemos como globalização começava a ganhar vida. Portugal foi um dos países pioneiros desta troca cultural pelos quatro cantos do mundo.

Os portugueses, que primeiro exploraram o Norte de África, viajaram para as Américas e continuaram para a Ásia. Foram responsáveis por imensos intercâmbios culturais e com esta mistura de tradições e estilos de vida o modo como o mundo come hoje mudou para sempre. Até esse momento os habitantes de todos os cantos do mundo alimentavam-se de ingredientes locais e em grande parte desconheciam alimentos produzidos noutros lugares.

Por volta de 1500, graças ao comércio de especiarias iniciado pelos portugueses, as malaguetas foram introduzidas na Ásia, as batatas que eram nativas da América do Sul passaram a ser o produto de eleição em muitas partes do mundo, os citrinos da Ásia passaram a ser ícones na Europa e o milho, que foi trazido para várias partes de África, é até hoje uma das principais plantações desse continente.

Foi também graças aos portugueses e à rota marítima para a Índia, então estabelecida, que as especiarias asiáticas se tornaram amplamente disponíveis na Europa e no mundo ocidental, reduzindo custo e vulgarizando a sua utilização na cozinha do dia-a-dia.

É certo que os portugueses influenciaram a gastronomia mundial com a introdução de ingredientes estrangeiros em diferentes partes do planeta. Mas a sua marca foi além disso: introduziram várias técnicas culinárias e preferências de sabores. De facto, existem vários pratos que regularmente associamos a específicas partes do mundo, mas em realidade originaram-se em Portugal ou por portugueses.
 
Aqui estão 5 comidas que não sabias serem portuguesas:


1. Tempura / Peixinhos da Horta


Para muitos foodies, tempura é sinónimo de cozinha japonesa, mas não foi até 1543. Esta é data da chegada dos portugueses a Nagasaki e a altura em que esta forma de cozinhar foi introduzida no Japão e Ásia.

Embora passar por polme e fritar pareça-nos hoje algo corriqueiro, não era algo comum para processar alimentos há 500 anos atrás naquela parte do globo.

Quando os mercadores portugueses tentaram estabelecer-se em território japonês, também tentaram espalhar a religião católica, vindo acompanhados por missionários jesuítas cuja missão era evangelizar. Seguindo as regras católicas, não se comia carne às sextas-feiras. Numa tentativa de tornar os vegetais crus e peixe mais apetecíveis ao palato, e deveras mais substanciais, os portugueses passavam por polme e fritavam esses alimentos. Em Portugal, isto era costume fazer especialmente com feijões verdes, um prato que continua a vê-lo na cozinha caseira e em restaurantes tradicionais por todo o país: peixinhos da horta. Os dias de jejum eram conhecidos em latim por tempora, facilmente explicando a génese do nome tempura, que parece bem mais fácil de pronunciar do que a versão portuguesa: peixinhos da horta.

Não há dúvidas de que os japoneses aperfeiçoaram a arte da tempura, fazendo-a mais leve e estaladiça que a versão portuguesa e aplicando-a a outros alimentos para além dos vegetais. Mas Portugal continua a ser a origem onde tudo começou.


2. Vindaloo / Carne Vinha d’Alhos


A comida portuguesa não é picante, então como é que o vindaloo pode ser português? Tecnicamente não o é. O vindaloo indiano é uma evolução da carne vinha d’alhos portuguesa. Mais do que um prato, vinha d’alhos é uma maneira de marinar carne que, como o nome indica, envolve a carne em vinho e alho.

Quando os portugueses chegaram à Índia, fixando-se em Goa e em territórios próximos, fundando o Estado Português da Índia, naturalmente trouxeram certos costumes culinários. Como o vinho não era um ingrediente comum neste subcontinente, eles serviram-se de vinagre de palma para marinar a carne. Para além do alho, ao bom estilo indiano, uma variedade de outras especiarias começaram lentamente a aparecer em receitas de carne. De facto, os próprios portugueses foram os responsáveis pela introdução de malaguetas nativas da América Central na Índia e no resto da Ásia, fazendo-nos pensar quanto das cozinhas asiáticas que hoje são famosamente ricas em especiarias, eram outrora. Consequentemente, a combinação de mãos portuguesas e indianas nos fogões de Goa deram origem ao caril de carne que hoje conhecemos como vindaloo.

Enquanto em Portugal, se tiver essa hipótese, recomendamos que experimente a Carne Vinha d’Alhos, para provar as diferenças, mas também para perceber a origem de um dos pratos mais icónicos da cozinha indiana.


3. Feijoada


Comumente identificada como o prato nacional do Brasil, a feijoada teve a sua origem no interior de Portugal. Este aconchegante guisado de feijões e diferentes tipos de carne, perfeito como comida de conforto em dias de inverno, data da época do Império Romano.

Há mais de 2000 anos os romanos que se fixaram na Península Ibérica popularizaram o cozinhar de feijões e carne de porco. Este apetitoso guisado era confecionado com os restos de carne de outros pratos nobres, evoluindo para o que hoje conhecemos como feijoada. Não admira que este prato não esteja apenas presente no Brasil, mas também em muitos outros territórios onde os portugueses se fixaram e tiveram influência para além do Brasil, tais como alguns países africanos, em Timor e até em Macau.

Hoje em dia cada país dá o seu toque à feijoada. No Brasil, por exemplo, prefere-se feijões pretos, enquanto que em Portugal são os feijões vermelhos e os brancos que são mais utilizados.


4. Peri-Peri Chicken / Frango de Churrasco


Graças a cadeias internacionais como o Nando’s, o mundo aprimorou um apetite por este tipo de frango grelhado comumente designado em inglês por chicken peri-peri ou chicken piri-piri. Aqui em Portugal, acredite-se ou não, esse não existe. Frango assado no carvão, cozinhado escalado, é apenas conhecido por cá como frango de churrasco.

Apesar de tecnicamente Nando’s ser um franchise Sul Africano, a ideia para a receita que deu fama mundial a este restaurante é originalmente portuguesa, bem como o seu dono. Frango de churrasco tem sido a comida fast-food e take-away de eleição de Portugal há já muitos anos, bem antes das pizzas em caixas de cartão e das apps de comida ao domicílio.

A grande diferença entre o frango de Portugal e o frango do resto do mundo é que a maneira portuguesa de o preparar requer assar o frango, mas apenas adicionar o molho picante piri-piri no final e como opcional. Pode pedir o seu frango pincelado, mal acabe de sair do grelhador ou apenas adicionar molho para dar sabor quando é servido. Em Portugal, a carne não é marinada de antemão, permitindo personalizar o nível de picante que cada um aprecia. Na realidade, a maioria dos portugueses, opta pelo molho de manteiga e limão, mais ao gosto do paladar geral nacional.


5. Kasutera / Pão-de-ló


Castella. Kasutera. Sponge cake. Chame-lhe o que quiser. Mas se vir um bolo cheio de gema de ovo na Ásia pode apostar que tem influência portuguesa.

Os portugueses são famosos pelo uso abundante de gema de ovo na sua gastronomia, particularmente no que toca a sobremesas. Foram os primeiros europeus a chegar ao Japão, onde Kasutera é ainda um dos doces mais populares até hoje. Este bolo é uma evolução do pão-de-ló português.

Há alguns séculos atrás esta sobremesa era conhecida em Portugal como Pão de Castela, fazendo referência ao Reino de Castela na Península Ibérica, que mais tarde viria a fazer parte de Espanha. A conexão entre os nomes Castela e Kasutera é óbvia. Cada vez que alguém encontra sobremesas amarelo torrado nalgum lugar da Ásia, faz todo o sentido ligar a sua introdução e popularização à presença portuguesa, visto que o uso de gema de ovo em sobremesas não é tradicionalmente associado a esta parte do mundo.

Outros exemplos desta tendência incluem a Bebinca, um pudim característico do sul da Índia; a versão tailandesa dos fios de ovos portugueses, conhecida como Foi Thong; ou até mesmo o Bolu, um pão-de-ló indonésio que deriva claramente da palavra portuguesa bolo.
 
Se a comida portuguesa tem influenciado o mundo inteiro, não restam dúvidas de que a maneira como o mundo come foi também imbuída pelos portugueses. Junte-se ao nosso Lisbon Roots, Food & Cultural Walk e permita-nos ajudá-lo a familiarizar-se como todas estas deliciosas nuances internacionais e multiculturais.

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